
Célestin Freinet (1896-1966) nasceu em Gars, França e serviu na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Um ferimento aos pulmões limitou suas possibilidades físicas, mas não impediu de conceber em 1920, a idéia de uma escola moderna, fundamentada em filosofia de vida libertadora e revolucionária. Em breve espaço de tempo, com a colaboração da esposa Elise e de um grupo de companheiros, suas idéias ganharam o mundo.
Fala-se muito sobre a genialidade de Freinet e Elise ao criarem e aperfeiçoarem as práticas da Escola Moderna. Freinet, filho de camponeses, soube unir as experiências e as expectativas do dia-a-dia, transformando tudo em um novo método de aprender e ensinar. Fala-se pouco do homem, marido, pai, companheiro, amigo... Hoje, resgato um pouco da história de “Freinet Homem”, baseada em relatos de companheiros que compartilharam durante anos a vida diária, as lutas e alegrias desta pessoa que não se deixou abater pelos pesares da vida mas fez deles alavanca para construção de melhores condições para as crianças do povo que tanto amou.
Foi numa linda noite de verão, no início da RIDEF de Lisboa (1975) que uma inquietação surgiu em minha mente: “-Como Freinet conseguiu “seduzir” a tantas pessoas, de tantas nacionalidades?” Qual foi o segredo? O que teria, Freinet Homem, em sua pessoa que atraia, convencia, conquistava?
Éramos mais de 100 companheiros, reunidos no encontro de abertura ao ar livre que caracteriza todas as RIDEF; cada delegação levara pratos típicos de seu país. Pela primeira vez o Brasil era representado oficialmente e coloquei na mala alguns quilos de feijão, farinha de mandioca, cocadas e “chips de banana”. Entre pratos saborosíssimos, tortas francesas, portuguesas, salmões-nórdicos defumados, compotas, grande foi meu espanto ao ver a fila de colegas repetindo da minha simples feijoada. A farinha, segundo eles, dava um toque “especial à la brésilienne”. Quem diria... o feijão nosso de todo dia foi o sucesso da noite, isso sem falar nos “chips de banana”...
E, naquela noite de tanta abundância e regalos, momento que simboliza as reuniões do primeiro grupo formado por Freinet [1], teve início uma pesquisa que se prolonga pelos anos afora. Contatei, entrevistei, insisti com muitas pessoas querendo respostas a uma pergunta: “Abstração feita da pedagogia, das idéias, dos ideais, como foi que te tornaste amigo de Freinet? Como ele te conquistou? O que lembras dele como pessoa?” Como foi difícil obter respostas... Os olhos revelavam inicialmente surpresa, em seguida hesitação. Tentavam falar na Escola Moderna, em filosofia de vida e eu insistia que não se tratava disto. Eu queria as recordações do homem Freinet. E, com o decorrer dos dias, as respostas chegaram Na RIDEF vive-se Freinet 24 horas por dia, em grupo, e fiquei surpresa descobrindo o quanto de reflexão profunda havia sido necessário para que os colegas me respondessem.
No início da década de 20, era freqüente manter diários pessoais ou pequenos cadernos para anotações. Ainda fazia parte da educação formal na escola, e no lar, exigir que as crianças mantivessem seus registros “de vida”. Tal hábito acompanhava a criança pela vida afora. Entrevistando, trocando idéias com o maior número de pessoas, freqüentemente foram consultadas “anotações” que faziam parte dos guardados, e lembranças, acontecimentos, fatos esquecidos ganharam atualidade.
Uma linda “jovem” de mais de 70 anos, tão ativa de causar inveja a muitos de menos idade me disse textualmente: “-Hoje não posso falar-te em datas e lugares porque não quero errar e a guerra me obrigou a tantas andanças que receio trocar alguma coisa mas te prometo que ao chegar em casa, consulto meu diário e te escrevo” (ela era polonesa e nos encontrávamos na RIDEF de Turim, Itália). E a resposta chegou: “-Agora posso responder-te como eu vejo Freinet se eu fecho os olhos e o recordo. Ah, como ele era bonito, tão bonito! Os olhos grandes e escuros, parece que olhavam fundo na tua alma...mas gentilmente porque sempre ele foi gentil. E de tanto em tanto, ajeitava os cabelos pois se orgulhava de seus cabelos. Aliás, parecia ser sua única vaidade”.
Eu insistia brincando: “-Amiga, amiga, estavas apaixonada?” E ela: “-Claro, todo mundo se apaixonava por ele, mas ele sempre era “um senhor”, bem vestido, elegante, mesmo que a roupa fosse a mesma. Ele era elegante e tinha classe!” E eu: “-Então foram os belos olhos e cabelos que te atraíram?” Ela, após profunda reflexão, já bem séria, me disse: “-Não, o principal foi sempre a voz. Uma voz que te seduzia, transmitia equilíbrio interior, convicção profunda, segurança...” Naquele dia agradeci e prossegui em meu propósito deixando-a sonhadora e sorridente, extremamente jovem, curtindo a tarde de um verão glorioso, na companhia de Freinet e suas aprazíveis reminiscências.
De uma colega portuguesa ouvi: “-Freinet foi o mais maravilhoso correspondente que alguém pode ter. Nunca deixou uma carta, um cartão ou um bilhete sem resposta. Aonde encontrava tanto tempo? Escrevendo em todo o lugar. Escrevia em pé, encostado de preferência em uma árvore, à mesa, em seu escritório, sentado em uma pedra, deitado. Amava escrever. Foi certamente um dos motivos que o levou a criar a correspondência interescolar. Considerava com toda propriedade o escrever, uma força poderosa, a escrita uma arma legítima. Tinha prazer em lembrar sempre aos seus colegas que foram os pensadores – escritores que fomentaram as revoluções e as guerras”. Na época em que Freinet viveu o analfabetismo, as injustiças sociais, a miséria e as doenças oprimiram o povo que ele tanto amava. “-Eu guardo tudo o que ele me escreveu”. “-Amiga, além das cartas o que em Freinet mais te atraiu?” “-A voz! Impossível esquecer a voz. Falava com convicção, mas suavemente e ele não te largava até verificar em teus olhos que tinha absorvido a mensagem”.
Mais tarde, no alojamento, aquela fila de rostos e histórias desfilavam em minha memória. Exemplos da vida, experiências pedagógicas e peculiaridades – Freinet por Freinet.
De tantos contatos e relatos, emergiu uma figura de Freinet homem: amigo, sábio, alegre, divertido, bom companheiro, generoso, humorista, belo homem, sedutor, perseverante, elegante, vaidoso de sua vasta cabeleira, falante, acessível...
Assim o descreve um colega:
_Freinet tal como o conheci em Agosto de 1926, me pareceu, como já imaginava, um belo homem sedutor, bom companheiro e brincalhão, sorridente e “falante”.
Tornou-se um amigo indispensável, com ele a vida valia a pena ser vivida. Tudo nos atraia para o genial e criativo colega. Ele sabia melhor do que ninguém colocar uma pitada de bom humor em suas respostas.
Quando se viveu com Freinet é impossível esquecer as emoções, as alegrias, as surpresas constantes, o sabor da vida compartilhado com as crianças, as explosões de alegria quando o correio trazia os “pacotes respostas”.
O homem pelo qual eu tive a maior admiração, depois de meu pai, é sem dúvida Célèstin Freinet que teve a generosidade de incluir-me entre seus amigos e a qual não sabia negar nada.
Freinet era muito acessível e o contato com ele sempre fácil. A bondade emanava de seu olhar e a simplicidade do seu porte, o charme de seu sotaque meridional, a modéstia da sua fala, tudo contribuía para estabelecer um contato amigável e frutuoso durante o qual cada um dava um pouco e recebia muito, tanto a conversação com ele era enriquecedora...Nossa amizade e colaboração durou até a sua morte.
Freinet foi também e sobretudo um homem bom e generoso. Um dia, em que me fazia perguntas a respeito de meus pais, suas idades, profissões, contei-lhe que eles nunca haviam visto o mar. E ele respondeu: “_Eles nunca viram o mar? Mas isto é um absurdo! Escuta, daqui a quinze dias, eu, Elise e Baloulette (sua filha) partimos para Queryas. Escreva logo para seus pais e se eles quiserem passar uma quinzena aqui, oferecemos nosso apartamento!” E assim foi feito.
Inicialmente senti uma intimidação porque Freinet era impressionante. Apesar do sorriso atraente, uma severidade emanava do rosto em tanto arredondado e não era necessário ser psicólogo para descobrir nos olhos castanhos, uma grande tenacidade que acompanharia este homem ao longo de toda a vida.
Descobri mais tarde o Freinet da terra. O homem ligado ao seu torrão: ele falando de seu pão feito em casa com o trigo integral, colhido na sua terra, dos seus legumes e dos seus frutos do pomar,,, Tudo cru em sua mesa. Tive na vida em grande chance pois me foi dado conhecer de perto um homem excepcional por tudo o que trouxe para a pedagogia e a vida nas escolas.
O caminho de Freinet foi duro, teve que vencer seus sofrimentos físicos que trouxe ao voltar da guerra, a apatia de alguns, a indiferença de outros, o ciúme que beirava ódio daqueles que em nome de uma ética hipócrita viam-no como um revolucionário destruidor de almas e consciências.
Em agosto de 1929, Freinet participava do Congresso de Besançon da Federação dos Sindicatos do Ensino quando Elise deu à luz a uma graciosa menina. Neste mesmo dia, veio a falecer o pai de Elise, sr. Lagier Bruni, que Freinet admirava muito. Assim é a vida: enquanto uns começam, outros terminam.
Casando com Elise, Freinet que já decidira devotar a sua vidaem prol de uma educação para o povo, entrou para uma família da qual os pais mais quatro filhos, escolheram os mesmos objetivos se bem que por caminhos diversos. Esta família foi atingida duramente pela desgraça mas se manteve sempre unida, amorosa, enfrentando os tristíssimos acontecimentos.
Marie-Louise, a mais velha, seguiu de vez Freinet, aceitando completamente suas teorias. Quem viu o filme: L´École Bussoniere – A escola gazeta, que retrata tão bem parte da caminhada de Freinet há de lembrar o texto: “ O Gatinho que não queria morrer”. A historinha foi orientada por Marie-Louise e escrita por seus alunos.
Fernand era um professor de séries iniciais e convocado para a guerra, onde pilotava aviões, voltou sem ferimentos. Dono de um espírito muito independente, não quis aderir a Escola Moderna que estava nascendo.
Lucien era engenheiro e compartilhava das idéias de Freinet sobre educação. Casou-se com uma professora, amiga do casal Freinet, e levou as idéias da Escola Moderna para região de Savoie. Criou uma das primeiras obras documentadas pela Biblioteca do Trabalho: A Ponte de La Balme: uma obra prima, ecológica.
A última moça, France, vivia para estudar. Freinet dizia dela: “_Trabalha e estuda demais. Deveria pensar em pouco mais em ter bons amigos de sua idade. Trabalho é bom mas devemos viver a vida!”. France tinha 20 anos quando faleceu de uma encefalite letárgica, causada pela revacina contra a varíola.
A mais velha, Marie-Louise, era professora em Vallouise. Um dia, tropeçou no estrado e teve uma percussão craniana falecendo instantaneamente. Deixou órfão o pequeno Didi, do qual Freinet filmara os primeiros passos alguns dias antes,
Outra tragédia absurda que atingiu a família de Freinet foi a morte de Madeleine. Ela era enfermeira-chefe e tinha como superior um médico que havia servido nas Colônias da África e contraído febres malignas, passando a ser acometido por constantes acessos de febres que o transtornaram, deixando-o violento e colérico.
Um dia perturbado por uma dessa crises, o médico chefe entrou na sala de trabalho de Madeleine e, sem mais nem menos, desfechou-lhe um tiro na cabeça. Elise nunca conseguiu refazer-se desse golpe.
Estas misérias da vida atingiram profundamente o casal Freinet mas os dois as enfrentaram bravamente superando a dor e a adversidade, continuando com tenacidade em sua obra.
Tanto o pai diretor de escola como a mãe de Elise, foram professores de renome que defenderam uma escola laica, gratuita e obrigatória para todas as crianças. Fato necessário numa época em que havia poucas escolas públicas e uma grande demanda. As crianças do povo eram em grande número preteridas.
A disseminação das idéias de Freinet foi muito rápida. Ele era bem falante e criava rapidamente novos amigos que aderiam às suas idéias e o acompanhavam em viagens – assistindo às conferências, participando das reuniões e incentivando outros colegas.
Freinet nunca esteve só, e mesmo em família, além da esposa e dele próprio, outros seis membros estavam engajados no magistério ampliando o círculo. Em todos os momentos de sua vida, nas lutas e nos sucessos, o grupo foi força e apoio.
Freinet foi astuto, perspicaz, persuasivo, clarividente. Falando da Unesco, esta grande instituição internacional, ele me dizia desejar que lá existisse uma antena, um escritório, um telefone e um número pois assim seria fácil, a Unesco viria até nós. Hoje no Assessorado da Instrução Pública de Aosta, eu tenho o telefone e o escritório. Preparo meu estágio de setembro, anuncio a nossa exposição permanente. Freinet havia imaginado tudo com tanta antecedência: há 40 anos... Na abertura do estágio, o delegado da Unesco virá para trazer cumprimentos e o reforço de sua organização”.
No Centenário do Nascimento de Freinet, no mês de outubro de 1996, em Paris, em evento oficial reuniu personalidades do mundo da educação e do mundo político e social resgatando o papel decisivo e a universalidade do pensamento e da obra de Célèstin Freinet. Justa homenagem!
Apresentei depoimentos de colegas holandeses, portugueses, italianos, belgas e sobretudo franceses. Alguns que responderam com tanta boa vontade ao meu questionamento, e espero não ter sido por demais impertinente na minha insistência, hoje nos deixaram. Mas como estou grata por eles terem revivido comigo suas reminiscências. Sua disponibilidade me permitiu partilha-las com a mais profunda amizade e gratidão. Agradeço também ao casal Emile e Mimi THOMAS que me ajudou a enriquecer este trabalho, contribuindo com uma série de relatos compilados pelo companheiro Raoul Faure*. Somos amigos no mais profundo sentido, mantendo bem viva nossa crença de que com amor e atividade bem dirigida podemos ajudar a criança a vencer.
--- por Flaviana Marchesi Granzotto
Psicanalista e psicopedagoga
Ex-docente da UFSM-RS (Universidade Federal de Santa Maria)
Ex-docente da FURB-SC (Fundação Universidade Regional de Blumenau)
Presidente de honra do Movimento Regional Freinet de Santa Catarina
[1] nos feriados se trabalhava, trocando experiências, revisando e criando com os trabalhos dos alunos os primeiros BT – biblioteca do trabalho, até que alguém reclamava: “Comida!”... Surgia então um penelão fumegante de sopa ou cozido e um garrafão do bom vinho. Depois, por uma meia hora (não mais) havia só descontração e se voltava ao trabalho. Os encontros de mestres prosseguiram, de regionais passaram a ser nacionais e mais tarde, internacionais, como o Mestre havia previsto. A FIMEM (federação Internacional do Movimento da Escola moderna) foi criada assim como outros encontros regulares anuais, as atuais RIDEF (Encontro Internacional de Educadores Freinet) que acontecem não mais somente na França, mas também em outros países filiados que se propõem a sediá-los. Neste ano, é a Polônia que acolhe os freinetianos, e serão centenas. Os primeiros simples encontros de Freinet e de seus amigos franceses evoluíram para importantes acontecimentos e o bom prato de alimento compartilhado permanece como símbolo da fraternidade.